As conquistas do sexo dito frágil

As conquistas do sexo dito frágil

As Olimpíadas de Tóquio mal acabaram e nós já sentimos saudades dos marcos históricos de 2021. Além da emoção dos jogos, é claro, poderia citar muitos aqui, mas me deterei a um específico: a troca de uniforme do time feminino de ginástica da Alemanha dos tradicionais collants pelos macacões que iam até o tornozelo. O objetivo, segundo a equipe, foi combater a sexualização do corpo das mulheres.⁣

Eu vou além. Isso reflete também um cansaço. Cansaço por serem medidas por seus corpos, pela beleza física, pela idade. Há muito as mulheres vêm se destacando, se mostrando fortes e aguerridas em uma causa muito justa. Ao contrário do senso comum, não buscam competição com os homens. Essa pauta é antiga, já está superada e enfraquece o discurso. Pelo contrário, buscam um espaço que é delas por mérito e que galgaram ao longo da história. Não sem muito esforço. Não sem muito sacrifício. Mas por meio de um caminho possível. 

Quem ousaria dizer que uma pessoa como a Cristina Junqueira, sócia e cofundadora do Nubank, não é capaz de alçar grandes voos, mesmo sendo casada e mãe de três filhas? Que ela não é digna de ter o reconhecimento e futuras oportunidades pelo brilhante trabalho que desempenha? A gestora vem demonstrando que não é o gênero que dita as regras, mas a competência e o trabalho árduo. 

Nas Olimpíadas, vimos historicamente atletas sendo obrigadas a usar uniformes que não concordariam, caso pudessem escolher, por hipersexualizar o corpo. Um sexismo bastante descarado. Multas são aplicadas às equipes pelo simples pedido de uma opção alternativa aos biquínis. 

Parece muito absurdo? No mundo das organizações, não é diferente. O que vemos são salários inferiores, percentagem menor de mulheres em cargos de liderança, assédio moral e sexual, além de discriminação nas seleções por inúmeros motivos, inclusive, o maior deles: a busca pela maternidade.  

A gravidez ou o desejo de uma futura gravidez deveria ser amparada por políticas organizacionais a fim de promover um ambiente saudável de trabalho e condições emocionais que garantam à mãe continuar atuando profissionalmente, sem prejuízo à carreira ou à organização à qual pertence. 

Se não é possível ser encarada como uma dádiva – que o é – ou levar em consideração que a gestação é a realização de um sonho para muitas mulheres, olhemos pelo lado prático. A geração de uma nova vida é importante para as políticas públicas. 

De acordo com a Organização das Nações Unidas, dois terços dos países europeus lançaram medidas para aumentar suas taxas de natalidade. Tais medidas vão de bônus pagos a cada bebê nascido, a licença-paternidade remunerada.

Durante a pandemia, vimos o exemplo de Singapura que paga para os cidadãos terem filhos por ter uma das taxas de natalidade mais baixas do mundo. A taxa de empregabilidade de mulheres (e mães) na Suécia, por exemplo, está entre as mais altas da União Europeia, de acordo com dados da Comissão Europeia. 

Não me parece razoável que em 2021 estejamos discutindo tais questões. Não é cabível. E, não, não é aceitável. Uma gestão competente independe do gênero e passa pelo conhecimento, comprometimento, oportunidades, responsabilidades e condições de planejar bem, executar bem e gerir os riscos.

Igualdade de tratamento e de remuneração são premissas básicas. A partir disso, políticas organizacionais, ações legais e normas de comportamento e conduta precisam ser continuamente observadas e melhoradas. Uma demanda não só para o Compliance, mas para todos nós que concordamos com essa causa e que nos indignamos com algumas regras ultrapassadas que precisam ser revistas para ontem.  

 

Presidente do Conselho Federal de Administração – Adm. Mauro Kreuz